Gloria Dei, vivens homo - Ed René Kivitz

O ateísmo é um fenômeno da modernidade. Foi a partir do Iluminismo que se fez a distinção entre fé e ciência, o que resultou no surgimento dos campos religioso e secular. A modernidade exclui Deus como hipótese para explicar o universo e normatizar a vida social. Enquanto a religião explica o mundo com afirmações metafísicas sustentadas pela fé, a secularização se vale do método científico que demonstra os fatos: contra fatos não há argumentos. O que a ciência não pode provar não pode ser imposto como paradigma para a vida em sociedade, é objeto de fé individual e privativa.

Copérnico e Galileu iniciaram o processo de desmanche das explicações teológicas do mundo da física. Karl Marx condenou a religião como ópio do povo e instrumento de alienação social. Friedrich Nietzsche denunciou a fé em Deus como impedimento para o desenvolvimento de uma humanidade autêntica. Sigmund Freud afirmou a busca de deus como manifestação de uma recusa à maturidade, uma opção pela infantilidade que insiste em se manter sob os cuidados de um Deus que mais se parece com um pai super-protetor.

Todos eles tinham em comum a preocupação de emancipar o ser humano da ignorância científica, a opressão social, a covardia existencial, e a infantilidade psicológica. Suas palavras negaram a Deus, mas sua intenção afirmou Deus com todas as letras. Como Queruga esclarece, o ateísmo da modernidade pode ser compreendido, não como negação do divino, mas afirmação do humano.

O tiro moderno saiu pela culatra. A "morte de Deus" matou o homem e esvaziou o universo de sentido: direção e significado. E então surgiu a modernidade líquida (Bauman), quando já se sabe que o humano não se basta, a ciência e a tecnologia não são suficientes, as ideologias carecem de suplemento de alma e a razão não abarca a totalidade da realidade: "á mais mistérios entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia" decretou Shakespeare.

Eis a oportunidade de resgate da religião, ou melhor do Cristianismo - o grande condenado no banco dos réus da modernidade. Agora é hora de mostrar que o sonho da modernidade se realiza no Cristianismo adulto. Somente a partir da fé e de relação com a transcendência, além dos limites da razão, o ser humano desenvolve sua plena humanidade. O Cristianismo também quer o surgimento do homem novo, ou como disse Santo Irineu de Lião, no segundo século: Gloria Dei, vivens homo - a glória de Deus é o homem na plenitude de sua vida.
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